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  • mariliacppassos

Calçadão

Saí do mar às dez da manhã e fui me trocar no calçadão, onde minha bicicleta

estava estacionada. Depois da natação, iria encontrar minha filha na pracinha e

detesto ficar de biquini molhado. Notei que havia uma pessoa deitada em um banco

ao lado da minha bicicleta e por um momento, pensei que não seria bom eu me trocar

ali, com alguém tão perto. Mas como seria rápido, preferi ficar ali mesmo. Pendurei a

mochila do guidão da bicicleta e peguei a toalha para amarrar na cintura. Havia

acabado de tirar a parte de baixo do biquíni quando a pessoa do banco falou:

Você pode me dar um dinheiro?

Foi no exato momento em que eu estava puxando o OB para fora, e me senti

bem desconfortável em ser abordada naquela situação delicada.


Estou sem dinheiro, moço.

Em parte, era verdade. Estava com pouco ou sem dinheiro na carteira. Mas eu

queria impedir que aquela pessoa se aproximasse de mim.

Moço, não. Moça! Eu tenho peito, olha! - disse, sentando-se e apalpando seus seios

de silicone por debaixo de um vestido tomara que caia vermelho.

Moça! Me desculpe.

Pensei que ela podia ter peitos, mas nunca passaria pelo desconforto de ter que

tirar um OB sujo de sangue no calçadão.

Eu gosto de preto - ela disse do nada, comendo algo que tirava de um pacote de

papel. Ontem apareceu um policial aqui, bem alto. Preto, lindo. Queria casar com ele.

Mas ele não me deu bola.

Legal.

Eu estava procurando um saco plástico em minha mochila para colocar o OB e

fiquei chateada de ter me esquecido de pegar em casa. O único jeito seria enrolar na

toalha quando a tirasse da cintura. Até la, ficaria com o OB escondido na mão. Não

queria que a moça ao meu lado visse o tampão sujo de sangue.

Eu gosto de preto por que eles são bem adotados.

Eu ri. Estava colocando a calcinha e o short, e comecei a me sentir mais a

vontade.

- Para mim, homem tem que ser bem adotado. É o que eu gosto, não tem jeito.

Ela voltou a se deitar no banco. Uma pequena bolsa velha servia de travesseiro.

Eu aproveitei para enrolar o OB na toalha e colocar na mochila. Que mania a minha

de esquecer o saco plástico!

Sabe que eu tô com fome? Desde ontem comendo essa besteiras…. Ela tornou a se

sentar e mostrou o pacote aberto. Não consegui ver o que tinha dentro.

O pior é que estou sem dinheiro mesmo.

Aqui tem quentinha de todo preço. Tem de cinco, tem de quinze, tem de dez.

Dependendo do dinheiro que consigo, é a quentinha que compro. Sabe que meu

namorado é branco?

É? Mas você não gosta de negro?


Você viu? Gosto de preto e meu namorado é branco.

Ela riu bastante dessa incoerência. Eu ri da leveza de sua risada.

Mas é que ele é bem adotado. Por isso gosto dele. Faz três anos que tamo juntos, mas

não tá dando certo não.

Estou vendo. Ele que te bateu?

Ela passou a mão pelos olhos roxos.

A gente briga muito. Mas eu gosto muito dele. Preciso dar um jeito nisso. Ele tem

casa, mora com a mãe. Eu já to faz dois anos na rua. Você não tem dinheiro nenhum

mesmo?

Eu já tinha colocado o sutiã e meu casaco, e estava guardando as coisas

molhadas na mochila. Aproveitei e peguei minha carteira.

Tenho seis reais.

Peguei o dinheiro e passei para ela.

Você não tem trabalho na sua casa para mim, não? Eu limpo, cozinho…

Reparei que ela se movimentava com uma certa graça em seu vestido tomara

que caia vermelho. Faltava-lhe dois ou três dentes na boca, mas estava sempre

sorrindo. O dia tinha amanhecido nublado e frio, mas o sol apareceu e eu comecei a

sentir calor com o casaco.

Você é casada?

Sou.

Seu marido é bonito?

Sim.

Então é melhor eu não trabalhar na sua casa. Não vai dar certo. Pena. Mas é melhor

não.

Ela queria preservar meu casamento. Tínhamos ficado amigas, pensei. Tirei o

cadeado a bicicleta e subi para ir embora.

Também acho! Vou indo lá! Boa sorte!

Ela tornou a deitar com a cabeça em sua bolsa.

- Tchau - disse balançando um dos pés e rindo para mim.

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